Algures no mundo

A linha entre coragem e parvoíce é ténue.

3 Comments

“Ah e tal, que corajosa”, ou qualquer coisa do género.

 

E finalmente viemos. Mas foi fácil? Não. E não é “não” mas fez-se. Sim, fez-se, claro (até porque não dá para atirar uma criança de uma janela de avião, senão não sei se se faria). Mas enfim, não foi mesmo fácil.
10 horas de voo. Duas crianças com menos de um ano e meio. Malas e cenas. Euzinha.
Comecei por olhar para tudo o que tinha que levar e lembrei-me do que disse a uma amiga quando ela foi de viagem com miúdos: “não leves muitos sacos”. Pois. Mas já estava. Eu já estava atrasada. E já não havia nada a fazer. Bota na bagageira as duas malas grandes, a cama de viagem, o carrinho, o ovo, o marsúpio, duas mochilas, uma cadeira que vira saco. Portanto, a casa toda, basicamente. E as duas miúdas, claro.
Depois vem a parte do check-in, que sabe-se lá porquê demora sempre o triplo (e não é porque somos 3 e antes uma!), depois o passar na segurança (onde, por norma, se desfazem os 20 sacos que temos às costas. Ou que tenho, já que vou sozinha) e finalmente o avião. Ahhh, mas claro que não há manga. Toma que vais de autocarro (e pelo tempo de autocarro que demorou, cheguei a achar que vínhamos até Moçambique de autocarro mesmo). Agora sim, finalmente avião. “É de noite, não pode correr mal. Elas dormem e pronto”. Só que não.
Começamos por xixi, muito xixi. Muda-se a fralda, afinal não é só xixi, e afinal além da fralda, tem que se mudar também a roupa. Bingo. Só levei mais uma muda e ainda não vou nem num décimo da viagem.
20 minutos depois. Mudar fralda outra vez. Mas tudo bem. So far, não choram o que é muito positivo. Já são 9 da noite, estão quase a dormir. Espero. Só que não (outra vez). A pequena (sim, porque a outra é enorme) ferrada, querida. A mais velha (também querida, não fossem as duas minhas filhas – isto pela opinião e não pela “queridez”) senta-se. Levanta-se. Dá voltas. Vai ver o que as pessoas estão a fazer, ri-se, acena, diz olá gestual. Faz tudo, menos dormir (e chorar, ufa). Passam-se 3 horas de voo, ainda nem vamos a um terço e ela adormece.
Boa. É agora que vou dormir. Está nas minhas pernas deitada, ponho-a em dois bancos e sento-me no chão. A outra no berço. Tudo perfeito. Ahhhh, nãooooo. “Turbulência” diz a hospedeira. (Amigos, um pum de uma pessoa faz o chão tremer mais do que aquilo). Não acredito. Obrigam-me a pôr as duas ao colo. Acordam. A turbulência que nunca existiu pára. Voltam a adormecer, volta a vir a pseudo-turbulência, e eu quase a bater na senhora que está a arruinar o meu voo. Voltam a acordar e decido que já não saem do colo. Voltam a adormecer (e isto parece que passaram horas e horas. Não! Uma hora, no máximo).
A mais velha no meu colo, adormece. A mais pequena no colo de quem veio comigo (muito querida, por sinal), adormece também. É agora que vou dormir. Não outra vez. A mais nova precisa de comer. Bingo. Ponho os pé na parede (vou na fila da frente), encosto a mais velha nos joelhos, completamente deitada nas minhas pernas. A mais nova por cima. (Estou a adorar este voo, can you tell?). Volta a adormecer. E eu penso: é agora que durmo. “Dormias querida”.
A mais velha acorda (e eu sinto o meu corpo a ficar num estado de stress). E pronto. Nunca mais adormece. Sim, as 6 horas que se seguiram..niente. Eu já em estado de desespero. Ela em estado de “whatever, let me be”. Não chorava, mas não dormia. Não queria colo. NADA.
Entretanto já tenho 4 fraldas de uma delas e 3 da outra espalhadas pelo chão do avião. Isso e lenços e toalhitas e mantas, almofadas, brinquedos com música, sem música, com luz e livros. Também há colheres e frascos e bocados de bolachas. Tudo o que normalmente é mau para a educação e bom para os ouvidos. Ainda assim, nada de dormir. Só um nojo de chão.
Mas e a miúda? Directa com nem um ano e meio de vida? Check! Saímos do avião (entretanto já tinha mudado a roupa outra vez. Dela, não minha (embora até eu tivesse calças com xixi. Dela, não meu, entenda-se). Duas pulgas ao meu colo. “Ah, o carrinho está lá em baixo no tapete”. “Devem estar a gozar, como é suposto ir com estas duas?”. Refilo mais 3 minutos e começo a perceber que quanto mais refilo, mais tempo as tenho ao colo. Vamos.
Depois é fazer o visto (já com o carrinho). Uma adormece. As duas, na verdade. Uma no ovo, a outra no pano.
“Tem que tirar para a fotografia”. (Silêncio. Não tem não. E não vou tirar).
“Tem que ser”.
“Amiga, não vou tirar, estão a dormir e não dormiram nada no voo”.
“E agora?”.
“Agora tira daí”.
 “Está bem”.
Finalmente, tudo feito. Not! Outra fila, para carimbar, desta vez.
“Qual é a morada onde fica?”
“Julius Nyerere”
“Número?”
“Não sei”
“Tem que saber”
“Mas não sei”
“Como vai para lá?”
“Vieram-me buscar”
“Mas tem que saber”
“Mas não sei” (E se acham que parecia um cuco estragado, bingo, estão certos)
“Mas tem que saber”
Respiro fundo. Sorrio e digo: “número 16”
“Ahhh, está a adivinhar”
“Pois”
“Não pode”
“Pois”
“Desta vez passa, mas para a próxima tem que saber”
Aceno. Please, só quero chegar a casa.
E o resto do dia? Péssimo. Nunca vi tantas birras seguidas.
“Só estás aí porque queres”, pensam vocês.
True.
Mas isto não é ser corajosa, nem nada disso. É só mesmo ser parva (e eu sou muito forte nisso!)
Venham os dias de sol e boa vista (office with a view) e praia e camarões (e empregada o dia todo). Vai ter que compensar este pesadelo.IMG_2622IMG_2623IMG_2656
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3 thoughts on “A linha entre coragem e parvoíce é ténue.

  1. Agora é aproveitar esse país lindo e companhia desses amigos fantásticos. Vemo-nos em Lisboa miúdas 😉

  2. E as hospedeiras? Não ajudaram imenso? Em 4 anos e viagens com 3 miúdos, só uma hospedeira, mãe de 3, me ajudou . De resto foi mesmo: não quiseste tê-los? Não quiseste viajar? Agora, aguenta!
    Maria, espero que tenhas uma ótima estadia!

    • Por acaso tenho tido sempre sorte 🙂 Devo ter um ar de “tirem-me daqui” e elas depois ficariam só com as crianças. Assim preferem ajudar um bocado 😉 (Pode ter a ver com serem tão pequenas, as miúdas. Às vezes isso ajuda).

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