Algures no mundo


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Há dois anos.

Diz que foi há dois anos que nos casámos. Não que eu me lembrasse, se até nas alianças consegui enganar-me na data. Mas lembro-me que foi divertido, como se quer de uma festa. Não foi pipi, pelo menos não achei, teve bolo de chocolate feito por mim (sem receita, mas não foi problemático, assim como assim raramente se come o bolo da noiva), e muita música à mistura.
Desde aí já passeámos muito – Jordânia, Eslovénia, Alemanha, Estados Unidos, Noruega e provavelmente outros sítios que não me vêm de momento à cabeça -, deitámos cá para fora duas crianças, que são as coisas mais queridas, mas também as maiores prisões que se podia arranjar, e arranjámos uma casa (ou pelo menos estamos no processo).
Diz-se que um casamento é feito de rotinas, o nosso tem falta dela. De rotinas só mesmo as horas de deitar das miúdas.
Mas apesar de todas as discussões, da minha falta de paciência, da nossa falta de rotina e de estares lá e eu aqui, tem sido um casamento que me faz sorrir cada vez que penso nele. Se tem sido desafiante? Talvez para ti, que não sou fácil, para mim tem sido só bom. Cansativo, talvez, mas se eu tomasse as vitaminas supostas, talvez melhorasse.
Anyways, tudo isto era para dizer que “viva a nóis”, e para agradecer o estares sempre aqui, mesmo que longe, o teres sempre um ombro (que, por sinal, é bem giro, como tu) e o teres sempre acreditado que valia a pena.
Podia ter sido diferente? Podia, mas, claramente, não seria a mesma coisa, como dizia o outro.familia_estufafria 013familia_estufafria 044ML 365ML 557ML 797

(De notar que o post é curto e pouco lamechas, mas foi feito entre choradeiras e trocas de fraldas, e ver a febre, e lavar a loiça, enviar um email, apanhar a roupa e sair de tudo viva. Bang, não é fácil, não me lixem – ou tramem, para não dizer asneiras).

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África. Ou Moçambique.

Por norma, só quem não esteve em África é que acha que África é pobreza. Ou que teve pouco tempo, vá.

Porque sim, há pobreza, claro, mas é uma pobreza que fica muito aquém dos sorrisos, e da alegria das pessoas. Não têm chinelos, mas nunca reclamam por isso. Ou casas, até.

E isto é o que mais gosto de África. E é por isso que gosto de cá trazer as minhas filhas, porque apesar de toda a gente dizer que elas não se vão lembrar, em última análise, lembrar-me-ei eu.
Sei que me vou lembrar de as ver a brincar com qualquer pessoa, preta, branca, pobre ou rica. Sei que me vou lembrar que comeram papas de milho, feitas com milho mesmo, e com leite. Sei que me vou lembrar que andaram descalças em qualquer chão e que foram seguradas em capulana para adormecerem. Vou-me lembrar que aqui a Quinta do tio Manel, passou a Quinta do tio Maneli, e que a We are family, I got all my sisters with me, passou a We are hummhummli, I got iol my sisters hummm.
Vou-me lembrar que aqui ninguém as trata como rainhas, e eu gosto disso, e vou-me lembrar que é bom voltar às origens (e no meu caso, são mesmo) para ter os pés na terra (ainda que tenha que chegar pelo ar).
Mas, ontem, ao ver o Francisco, um miúdo de 10 anos, que nem sabia ler nem escrever, mas que era muito querido, lembrei-me da pobreza, porque ele, ao contrário da maioria, tinha um ar triste. Um ar de quem não sabia bem para onde se virar. Um ar de quem queria que gostassem dele (e se eu gostei!). Um ar de quem precisava de mais, mas não tinha. E aí, naquele bocadinho, também eu fiquei triste, porque é difícil ver alguém assim e não poder fazer nada.
Já a minha miúda, mesmo sem falar, acho que fez o que eu não consegui, estar com ele. De igual para igual. E a brincar com um carrinho feito de latas e ferro.
Só por isso, também já valeu ter vindo.
(Apesar de tudo isto, valeu o fim-de-semana de miúdas, com chineses à mistura e sul-africanos a serem mandados por mim (de pijama e descalça) calar à uma da manhã, já que acharam que música aos berros ao lado da nossa casa era o que estava a dar).
Ficam as fotografias. DSC_0601DSC_0616DSC_0618DSC_0620DSC_0625DSC_0645DSC_0646DSC_0651DSC_0654DSC_0673DSC_0675DSC_0692DSC_0708DSC_0711DSC_0726DSC_0732DSC_0737DSC_0743DSC_0759DSC_0762


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Chapa(da)s.

E, de repente, tenho uma hora e meia para mim. É a loucura. Ir a piscina!
Vou de taxi, para ser mais rápido (ontem, acabei por ir a pé para onde precisava de ir, enquanto esperava pelo táxi. Hoje não há tempo para isso).
Espero 2 minutos (parece uma eternidade). Não há táxis, mas aparece um chapa, aka Toyota Hiace.
– passa no shopping24?
– sim
Entro. Toda a gente ri, claro. Sento-me. Metade em cima do banco, metade em cima da perna da amiga do lado. Mas ninguém parece achar estranho. Somos 18 (atenção que o carro dá, em teoria, para 11).
A certa altura pára, entram mais 3. Sim, já somos 21. (Andam os jogadores de futebol a gastar em autocarros de 50 lugares quando podiam só usar um destes. E para as duas equipas. Era certinho que chegavam quentes ao campo).
O chapa continua e começo a achar que aquilo não vai para onde eu quero. Espero mais 5 segundos e pergunto:
– amigo, mas não pára no shopping24?
O amigo, enterrado no meio de 20 pessoas nem ouve. Responde outro (que talvez por estar em cima de toda a gente, tenha ouvido melhor).
– sim, shopping maputo.
– nãoooo, qual shopping maputo. Quero o shopping24.
– sim, shopping polana.
(Pronto, está claramente a não ouvir a frase toda, assim como o outro também não ouviu, está visto).
Começo a gritar, a ver que só me estou a afastar mais do lugar que eu queria “heyyyy, páraaaaa. Pára aqui” (we all know como eu consigo ser peixeira).
Todos se riem e o motorista continua a andar.
– páaaaara! Quero sair.
Toda a gente à gargalhada. E o chapa lá pára. Um diz-me:
– fazes ginástica. Vais a pé (oh que maneira simpática de me chamar gorda, ahah). E o pior é que tinha mesmo que ir a pé.
– não vou pagar o valor todo, informo logo.
– pagas 4 (sim, estamos a falar de menos de menos de cinco cêntimos, mas não quero saber. É o princípio).
Achei que 4 era justo. Era metade do valor normal. Mas isto foi-me dito por um passageiro. Claramente o cobrador não concordava.
Saio do chapa. A refilar, claro. E o cobrador a querer os 9. No way!
– não pode só dizer ao cobrador para onde vai, tem que dizer a toda a gente. Nós tínhamos dito que não dava.
(Ah, tá!)
Para a próxima já sei.
E foi assim que a minha hora e meia se transformou em 1 hora e 10 (sim não parece drama, mas para mim, foi).
Damn!


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Bonança. Bem bom. Bingo.

E depois da tempestade, vem a bonança, já dizia o outro.

Como a tempestade foi das grossas, a bonança também. Bang, merecemos.

E tantas coisas para falar destes dias.

  • Podia falar de como a internet desapareceu por mais de 10 horas neste país e quando se ligava para o número da TV Cabo, atendiam do Hotel Tivoli. Como? Ninguém sabe.
  • Podia falar de como os porteiros dos prédios até perguntam quem somos e porque queremos entrar, mas qualquer que seja a resposta, eles ficam sempre a olhar sem saber bem o que dizer, sem escrever em lado nenhum e acabam por dizer: “Ah, ok, podes ir”.
  • Podia falar de como me dizem que está frio por aqui, já que é inverno, e eu ando há 4 dias à procura do comando do ar condicionado a meio da noite, sem encontrar (e perguntam-me porque não o procuro durante o dia. Ora, porque é durante a noite que preciso, e esqueço-me).
  • Podia falar de como é estar em casa, num andar bem bem alto e, de repente, aparecerem duas baratas. E quase nos pés da miúda.
  • Podia falar de como ando a comer que nem uma alarve, já que o metical está em baixo e o camarão em alta. E as batatas fritas, claro.
  • Podia falar de como, por outro lado, paguei 10 euros por 4 iogurtes e 2 litros de leite.

Mas nada disto era a bonança, portanto podia falar de tudo isso e de muito mais, mas deixo só aqui as fotografias do fim-de-semana. Com camarão, sim. Alguns mosquitos. Muitos amigos (uns vêm de África do Sul, outros estão por aqui, ah que bom é viajar), alguma cerveja, bastante “vai lá tu ver se ela ainda está a dormir no quarto”, enquanto se está no restaurante (claro que só pensávamos na Maddie, mas como conseguíamos ver a porta, não nos pareceu relevante). Muito divertimento. Pouca dormida. E muito “vamos fazer isto outra vez”.

Venham mais fins-de-semana destes e, se puder ser, dias de semana também.a copyDSC_0360DSC_0372 copyDSC_0380 copyDSC_0382DSC_0388 copyDSC_0426DSC_0427DSC_0432DSC_0445 copyDSC_0453 copyDSC_0454DSC_0462DSC_0474DSC_0481 copyDSC_0503 copyDSC_0513DSC_0517DSC_0529DSC_0552DSC_0574DSC_0576DSC_0586DSC_0595DSC_0598 copyDSC_0522 copyDSC_0574 copy


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A linha entre coragem e parvoíce é ténue.

“Ah e tal, que corajosa”, ou qualquer coisa do género.

 

E finalmente viemos. Mas foi fácil? Não. E não é “não” mas fez-se. Sim, fez-se, claro (até porque não dá para atirar uma criança de uma janela de avião, senão não sei se se faria). Mas enfim, não foi mesmo fácil.
10 horas de voo. Duas crianças com menos de um ano e meio. Malas e cenas. Euzinha.
Comecei por olhar para tudo o que tinha que levar e lembrei-me do que disse a uma amiga quando ela foi de viagem com miúdos: “não leves muitos sacos”. Pois. Mas já estava. Eu já estava atrasada. E já não havia nada a fazer. Bota na bagageira as duas malas grandes, a cama de viagem, o carrinho, o ovo, o marsúpio, duas mochilas, uma cadeira que vira saco. Portanto, a casa toda, basicamente. E as duas miúdas, claro.
Depois vem a parte do check-in, que sabe-se lá porquê demora sempre o triplo (e não é porque somos 3 e antes uma!), depois o passar na segurança (onde, por norma, se desfazem os 20 sacos que temos às costas. Ou que tenho, já que vou sozinha) e finalmente o avião. Ahhh, mas claro que não há manga. Toma que vais de autocarro (e pelo tempo de autocarro que demorou, cheguei a achar que vínhamos até Moçambique de autocarro mesmo). Agora sim, finalmente avião. “É de noite, não pode correr mal. Elas dormem e pronto”. Só que não.
Começamos por xixi, muito xixi. Muda-se a fralda, afinal não é só xixi, e afinal além da fralda, tem que se mudar também a roupa. Bingo. Só levei mais uma muda e ainda não vou nem num décimo da viagem.
20 minutos depois. Mudar fralda outra vez. Mas tudo bem. So far, não choram o que é muito positivo. Já são 9 da noite, estão quase a dormir. Espero. Só que não (outra vez). A pequena (sim, porque a outra é enorme) ferrada, querida. A mais velha (também querida, não fossem as duas minhas filhas – isto pela opinião e não pela “queridez”) senta-se. Levanta-se. Dá voltas. Vai ver o que as pessoas estão a fazer, ri-se, acena, diz olá gestual. Faz tudo, menos dormir (e chorar, ufa). Passam-se 3 horas de voo, ainda nem vamos a um terço e ela adormece.
Boa. É agora que vou dormir. Está nas minhas pernas deitada, ponho-a em dois bancos e sento-me no chão. A outra no berço. Tudo perfeito. Ahhhh, nãooooo. “Turbulência” diz a hospedeira. (Amigos, um pum de uma pessoa faz o chão tremer mais do que aquilo). Não acredito. Obrigam-me a pôr as duas ao colo. Acordam. A turbulência que nunca existiu pára. Voltam a adormecer, volta a vir a pseudo-turbulência, e eu quase a bater na senhora que está a arruinar o meu voo. Voltam a acordar e decido que já não saem do colo. Voltam a adormecer (e isto parece que passaram horas e horas. Não! Uma hora, no máximo).
A mais velha no meu colo, adormece. A mais pequena no colo de quem veio comigo (muito querida, por sinal), adormece também. É agora que vou dormir. Não outra vez. A mais nova precisa de comer. Bingo. Ponho os pé na parede (vou na fila da frente), encosto a mais velha nos joelhos, completamente deitada nas minhas pernas. A mais nova por cima. (Estou a adorar este voo, can you tell?). Volta a adormecer. E eu penso: é agora que durmo. “Dormias querida”.
A mais velha acorda (e eu sinto o meu corpo a ficar num estado de stress). E pronto. Nunca mais adormece. Sim, as 6 horas que se seguiram..niente. Eu já em estado de desespero. Ela em estado de “whatever, let me be”. Não chorava, mas não dormia. Não queria colo. NADA.
Entretanto já tenho 4 fraldas de uma delas e 3 da outra espalhadas pelo chão do avião. Isso e lenços e toalhitas e mantas, almofadas, brinquedos com música, sem música, com luz e livros. Também há colheres e frascos e bocados de bolachas. Tudo o que normalmente é mau para a educação e bom para os ouvidos. Ainda assim, nada de dormir. Só um nojo de chão.
Mas e a miúda? Directa com nem um ano e meio de vida? Check! Saímos do avião (entretanto já tinha mudado a roupa outra vez. Dela, não minha (embora até eu tivesse calças com xixi. Dela, não meu, entenda-se). Duas pulgas ao meu colo. “Ah, o carrinho está lá em baixo no tapete”. “Devem estar a gozar, como é suposto ir com estas duas?”. Refilo mais 3 minutos e começo a perceber que quanto mais refilo, mais tempo as tenho ao colo. Vamos.
Depois é fazer o visto (já com o carrinho). Uma adormece. As duas, na verdade. Uma no ovo, a outra no pano.
“Tem que tirar para a fotografia”. (Silêncio. Não tem não. E não vou tirar).
“Tem que ser”.
“Amiga, não vou tirar, estão a dormir e não dormiram nada no voo”.
“E agora?”.
“Agora tira daí”.
 “Está bem”.
Finalmente, tudo feito. Not! Outra fila, para carimbar, desta vez.
“Qual é a morada onde fica?”
“Julius Nyerere”
“Número?”
“Não sei”
“Tem que saber”
“Mas não sei”
“Como vai para lá?”
“Vieram-me buscar”
“Mas tem que saber”
“Mas não sei” (E se acham que parecia um cuco estragado, bingo, estão certos)
“Mas tem que saber”
Respiro fundo. Sorrio e digo: “número 16”
“Ahhh, está a adivinhar”
“Pois”
“Não pode”
“Pois”
“Desta vez passa, mas para a próxima tem que saber”
Aceno. Please, só quero chegar a casa.
E o resto do dia? Péssimo. Nunca vi tantas birras seguidas.
“Só estás aí porque queres”, pensam vocês.
True.
Mas isto não é ser corajosa, nem nada disso. É só mesmo ser parva (e eu sou muito forte nisso!)
Venham os dias de sol e boa vista (office with a view) e praia e camarões (e empregada o dia todo). Vai ter que compensar este pesadelo.IMG_2622IMG_2623IMG_2656


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Páscoa sem coelhos, mas com gatas. E frangos.

Diz que os almoços de Páscoa são bons.

No nosso caso, desta vez, foi um belo de um frango no churrasco, acompanhado de pseudo-cerveja pseudo-fria quase morna, numa capolana (ou capulana, who knows) e um “passa aí o guardanapo, que tenho que limpar as mãos para agarrar na criança que está já com a cara meio na areia e não se sabe levantar” (quando mais limpar).

Chegámos à casa que tinhamos alugado. No Santa-para-lá-de-qualquer-sítio-que-se-conheça. A povoação mais perto era a 25 minutos (ah, e dizem vocês, mas isso não é longe), ah, tá. Não é longe se não tivermos que ir comprar o jantar porque o empadão ficou na arca frigorífica a ver se era servido numa outra altura que não estas férias, claramente. Mas tudo bem, compraram-se lasagnas “rasca”, camarões finos e umas cervejas (e água, que aquela água da torneira não era muito boa) e pimba. Done. Casa gira. Piscina óptima (mas capaz de fazer concorrência à água do Pólo Norte e Sul e tudo mais), jardim também e tudo mais (claro que do ponto de vista de berros de crianças, cada quarto podia ser mais isolado, e do ponto de vista de termos crianças afogadas na piscina, também podia ter protecções, mas enfim, pormenores). Sim, que tentámos comprar braçadeiras e mandaram-me para a zona das cordas (a achar que eram daquelas braçadeiras de plástico para amarrar coisas que eu queria). Ficámos muito fortes a fazer protecções com cadeiras (e a minha filha muito forte a tentar ultrapassá-las. Há pais que dizem que os filhos são tãoooo quietinhos. Pois a minha, vai direita ao que não pode, como entrar na varanda e tentar passar entre as grades para descer ao rés-do-chão mais rápido, ou apanhar flores, quem sabe. Só não conseguiu porque a agarrámos).

E depois há aquelas praias cuja água é verde, cristalina, de se pensar “e vou eu para longe longe para ir à praia, quando tenho destas pérolas por aqui”, e aquelas praias sem gente, e aqueles restaurantes com salada de polvo (que a minha filha devorou – agora ando a criar gente fina, é o que parece), marisco, peixe e tudo mais por tuta e meia.

E “mais depois” há aquelas pessoas que são família não o sendo. E os que são família sendo. Tudo perfeito.

Tudo isso na nossa Páscoa. Coelhos, nem vê-los. Ovos, também não (só uns cozidos ao almoço do dia anterior), mas, ainda assim, foi bom, mas bom.

(A piada no título é do pior, mas é óptima por isso).DSC_0075DSC_0079DSC_0085DSC_0101DSC_0131DSC_0137DSC_0143DSC_0150DSC_0151DSC_0160DSC_0164DSC_0165DSC_0167DSC_0168DSC_0177DSC_0183DSC_0189DSC_0194DSC_0199DSC_0202DSC_0207DSC_0209DSC_0210DSC_0218DSC_0229DSC_0230DSC_0234DSC_0240DSC_0248DSC_0256DSC_0264DSC_0268DSC_0270DSC_0275DSC_0277DSC_0280


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Ser esse ser zombie que anda por aí.

Ser mãe é ter que trabalhar e não conseguir bater uma tecla que implique ter o cérebro a pensar. Pelo menos hoje. Porque ser mãe é não ter dormido. Ou ter dormido um bocado, não nos vamos queixar. Dormir, não dormir, dormir, não dormir. As noites são um bocado como jogar ao bem-me-quer-mal-me-quer, mas fica-se com a sensação de se ter claramente parado no mal-me-quer o tempo todo.

Ser mãe é tomar banho com o camelo da minha filha a olhar para mim. Um boneco, portanto, que não chamo camelo à criança. Pelo menos por agora. Ser mãe é já não sentir fome. Ou sentir e olhar para os ténis cheios de sopa (os meus, não os dela), para as calças com ranho e para os cabelos com gordura (das mãos, não que não os lave, atenção) e pensar: passo. Fica para a próxima. Ou então, não passo e vou ali ao bolo, ou aos chocolates, ou às bolachas Maria com manteiga, que têm 26gr de açúcar por cada 100 de bolacha (sim, ser mãe é também saber isto).

Ser mãe é ter sempre tudo desarrumado. Já era, por natureza, mas estávamos a falar de roupa, não de aspiradores nasais, ou de bonecas chamadas Felicidade, ou gorros e compressas e fraldas sujas (sim, é terrível, mas é verdade), ou outras coisas que tais. O que vale é que nunca me ralei com a desarrumação, senão estava tramada. Mas ser mãe é estar tramada, sem dúvida.

Ser mãe é ouvir falar em 700 doenças terminadas em “ite”, cuja existência era totalmente não existente no meu léxico de palavras (que está muito reduzido neste momento, ainda assim). E não falo de otites, essas são peanuts. Que, por falar nisso, ser mãe é ter peanuts para almoço, jantar e pequeno almoço. Com felicidade (e não, não é a boneca da miúda, é só o sorriso na cara, ou no rosto, como diria o meu marido “brasileiro”).

Ser mãe é ter que pensar em 4 conjuntos de roupa por dia (e se para mim eu já não usava nada que “conjugasse”, ui, agora então…). E porquê quarto? Porque o bolsado (vá, vomitado, para o comum dos mortais onde me incluo) gosta de aparecer por aí, só porque sim. E portanto são conjuntos para ela, conjuntos para mim, panos para limpar o chão, o pescoço e tudo o que esteja à frente. Uma maravilha, portanto.

Ser mãe é ir à casa de banho sozinha (temos pena, mas não engulo essa de as levar para a casa de banho comigo) e ficar estressada por as deixar a chorar. Mas deixar, ainda assim. E ficar estressada porque já não se aguenta aquele choro que está a dizer: “não tens tempo para ti, anda aqui ver o que tenho, que por norma nem é nada, mas quero companhia”. Pimba, e o que faz a mãe. Faz companhia. Ou então choram por cólicas, dizem, e ser mãe é massajar a barriga ainda que essas cólicas sejam, na verdade, uma dor no dedo mindinho, who will know?

Ser mãe é repetir 200 vezes como faz o cão, como faz o gato e o pintainho e chegar a um momento em que se troca a cabra com o burro e já nem se tem voz para fazer o “cócorococo”. Mas faz-se. E diz-se que é o galo rouco.

Ser mãe é estar aqui há 30 minutos a escrever isto, porque, then again, o cérebro está mau e não me apetece abrir os emails que vão aparecendo no canto inferior direito porque sei que nem sei por onde começar, e estar a cheirar cocó, mas não apetecer ir já mudar a fralda porque a miúda agora já não se deixa mudar, e rebola, e faz fitas e eu já não sei mais que brincadeiras hei-de fazer para que a muda da fralda seja tranquila.

Mas ser mãe é divertido. Ponto.

(Em baixo, uma está a chorar, a outra com cocó e eu…eu estou só aqui, a ver passar os comboios).

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